Confesso: fiquei feliz com a iniciativa da IBM em liberar 500 de suas patentes para uso do software de código aberto, leia-se Linux, o alvo dessa história toda. É certo que se levarmos em conta que a Big Blue possui cerca de 40 mil patentes, a iniciativa perde um pouco do brilho, afinal, menos de 1,5% está sendo liberado. Os chatos, não sem certa razão, vão lembrar das outras 39.500 patentes, vão dizer que a IBM está interessada em viabilizar o Linux por ser uma alternativa ao Windows, pedra no sapato da empresa, e que é muito mais barato liberar 500 patentes que renderiam muito pouco a ter que lidar com os altos investimentos ou com a própria incapacidade de desenvolver um sistema operacional com alguma chance de sucesso no mercado. Mas ninguém disse que se trata de um ato de caridade. O documento que oficializa a iniciativa deixa clara a intenção de ‘promover a inovação para o benefício dos ‘clientes’ (grifo meu) e para o crescimento e avanço no campo da tecnologia da informação’. Ninguém espera que uma empresa abra mão de seu ganha pão, no caso, suas patentes, sem receber algo em troca. Muito menos que abrace a filosofia de que ‘as pessoas devem ser livres para usar o software de todas as maneiras que sejam socialmente úteis’ como prega a Free Software Foundation (www.fsf.org), sem que haja uma alternativa segura em outra área para manter seu faturamento crescendo. A estratégia da IBM tem como objetivo trazer benefícios para seus negócios, é claro, e não há nada de mal nisso. O ponto mais importante é saber se as grandes empresas de tecnologia que estão apostando em sistemas de código aberto o fazem por convicção ao modelo ou apenas para diminuir a influência da Microsoft em seus negócios, que, diga-se de passagem, é grande e não fosse pelo crescimento do Linux nos últimos anos, poderia chegar a níveis insuportáveis. Pela repercussão burocrática que a notícia das patentes abertas obteve na comunidade de software livre, acho que tem muita gente desconfiando de suas verdadeiras intenções. Semana passada, quando apontei a importância da relação que a sociedade estabelece com a propriedade intelectual, não imaginava que a IBM fosse fazer o que fez. Foi uma jogada de mestre e eu tiro o meu chapéu. Independentemente de suas intenções, temos mais um caso de flexibilização do uso de uma tecnologia patenteada impensável há alguns anos. Se você é dos céticos, vai dizer eles vão saber proteger as outras 39.500 patentes que ainda mantém fechadas. Se você é dos otimistas vai dizer que sopa quente se come pelas bordas e que o que eles começaram é um caminho sem volta. Eu sou um otimista e, de qualquer maneira, é impossível não reconhecer a beleza e a ironia de ver uma recordista de patentes como a IBM apostar na comunidade do software livre como solução para seus problemas.