De pernas para o ar

Autor kobashi :: 11 abril 2005 - 3:00am tag
Depois que roubaram meu carro pela terceira vez só ando de táxi. Carlos, um motorista de cabelos compridos, barba grisalha e barriga farta, foi me resgatar de uma festa às 4h da manhã. Abriu a porta do carro ao som dilacerante de Hocus Pocus, da banda de rock holandesa Focus, dos anos 70. Reza a lenda que a tal banda é madrinha dos gritos característicos do heavy metal: como nenhum dos integrantes da banda falava inglês, sons primais e palavras como ‘iohoho’ decoravam as músicas. Conversa vai, conversa vem, ele me contou ter uma discoteca com 12 mil LPs e alguns milhares de CDs. Na minha conta, algo como 10 iPods, ou seja, música pra xuxu. Perguntei se ele tinha computador, se baixava MP3, se queimava seus próprios CDs. Ele disse que não, que tinha ‘escrúpulos’. E que, no mais, música é música, e a mídia é o que menos importa. Domingo passado almocei com amigos. Um deles, advogado respeitado, contou que uma noite chegou em casa e viu os filhos de 8 e 9 anos vidrados em uma porcaria na TV a cabo. Foi até a cozinha, pegou uma tesoura e cortou o fio da antena. Está assim há mais de dois anos. Medida radical, mas quem nunca se desesperou com a programação ‘infantil’ da TV? Meu sobrinho gasta mais tempo baixando atualizações, passando anti-vírus e reorganizando o disco rígido que usando o computador. Já minha mulher perdeu seu disco rígido na semana passada, mas não me pergunte como. O Ricardo Anderáos, editor e colunista aqui do Link, teve seu cartão de acesso à internet sem fio clonado e o Pedro, amigão de todas as horas, também. A Francis, produtora gráfica, teve que trocar o número do seu celular depois de ter sido clonado pela terceira vez. O gravador de CD da Renata só funciona quando quer. O Zeno tem em um blog que é atacado sistematicamente por spammers e não consegue fazer seu programa P2P favorito funcionar. A Myrian não sabe anexar arquivos no e-mail, quer dizer, sabe, mas não consegue. O Paulo briga com a impressora todo dia. A impressora é nova, mas ele brigava com a antiga também. O Hernani briga com o Xoops, software livre para manter sites, mas parece que vai vencer. Uma rede varejista anunciou um computador por R$1.299,00. Tentei comprar mas descobri que a espera era de 30 dias. Outra rede de varejo anunciou um computador por R$1.394,00. Tentei comprar mas não tinha no site, não tinha na loja e o pessoal do televendas nem sabia do que eu estava falando. O governo anunciou um computador por R$1.400,00 para dezembro, depois para março, depois para abril, depois disse que não sabia quando iria estar disponível. Eu tentei instalar um jogo novo que só me avisou que minha placa de vídeo era incompatível de todo o processo estar finalizado. Meu servidor de e-mail ficou fora do ar por dois dias e intermitente por uma semana. Fui obrigado a abandonar meu mouse novo porque meu ombro começou a doer. Meu celular caiu no chão e trincou a capinha. Ainda funciona, mas está feio. Tem tanto fio no chão da minha sala que se eu colocasse todos enfileirados daria para chegar até a padaria. Vou até a página da Receita Federal para conferir os procedimentos para minha declaração do imposto de renda e recebo a mensagem de que estou utilizando um navegador que não dá suporte a todas as funcionalidades que o site oferece e que, caso eu prefira manter a versão atual, alguns recursos poderão ser ‘prejudicados em seu funcionamento’. Nem a Receita quer meu dinheiro sem antes reclamar do meu Macintosh. Sou só eu ou às vezes você também acha que o mundo está de pernas para o ar?