Antes que seja tarde
Autor kobashi :: 21 março 2005 - 3:00am tagHá alguns anos, quando as propagandas de cigarro ainda eram permitidas e os fabricantes gastavam milhões com publicidade, era impossível ficar na frente da televisão sem ser bombardeado com mensagens tabagistas. Slogans como o ‘fino que satisfaz’, ‘leve vantagem você também’, ‘mas com alguma coisa em comum’, ganhavam as ruas e grudavam no vocabulário de fumantes e não-fumantes. Algumas campanhas carregavam tal apuro na linguagem e técnica publicitária que eram capazes de encantar o mais ferrenho dos anti-tabagistas. No auge dessa época, propaganda nova de cigarro era o assunto da semana. Sobre a genialidade publicitária colocada à serviço de uma marca de cigarros, lembro de um amigo comentando, não sem certo desânimo, que era “talento demais pra vender câncer”. Por alguma razão, o que temos de melhor, algumas vezes, é entregue ao que fazemos de pior.
Passei a semana vendo e revendo a última geração de jogos eletrônicos disponível nas lojas e barraquinhas de camelô da cidade. Nunca fui um apaixonado, desses de varar a noite jogando, esquecer de comer e tomar banho, mas por força da profissão e com algum deleite pessoal, sempre acompanhei a evolução dos joguinhos. Mas passei um ou dois pares de anos afastado desse mundo e fiquei assustado com o que vi. É incrível o patamar de excelência que esse pessoal atingiu. Música, enredo, imagens, grafismos, enfim, tudo é muito bem elaborado e envolvente. A tecnologia aliada à criatividade tem um efeito arrasador. Os tais jogos em primeira pessoa, onde você é o protagonista da ação, são de arrepiar. Sem perceber, você começa a se contorcer na cadeira e a desviar fisicamente de tiros e socos virtuais. Não é à toa que a molecada fica viciada. Bobeia quem não percebe o abismo técnico e conceitual que separa o que se faz hoje do que se fazia há 10 anos atrás.
Hollywood e a indústria de games dividem enredos e personagens há um bom tempo. Filmes viram jogos eletrônicos e vice-versa, mas não é isso o que importa. A cada dia o cinema usa mais tecnologia e a tecnologia mais cinema. As técnicas digitais, que até então eram privilégio de programadores de games, estão sendo usadas sem cerimônia na indústria cinematográfica. Por outro lado, jogos eletrônicos usam enredo e roteiros dignos de um vencedor de Oscar. Também tem havido uma transferência de técnicos e tecnologia entre os dois setores. A troca de figurinhas que tem ocorrido entre o mundo do cinema e o dos jogos eletrônicos está criando uma nova forma de entretenimento. É esperar para ver.
Mas por alguma razão, e diferente do cinema ou da TV, onde entre bobagens, tiros e mortes é sempre possível encontrar técnica e talento a serviço da arte, da educação ou da ciência, o mundo da interatividade digital parece ter encontrado sua morada na banalidade ou na violência. Mesmo as exceções, que existem, é claro, não atingem a sofisticação de linguagem e tecnologia empregada nos jogos de ação. Parece não haver recursos para quem queira usar o conhecimento empregado nesses games a serviço de coisa melhor. Não há como não lembrar das propagandas de cigarro e pensar que é talento demais para tanta violência. Se o cinema e a TV conseguem reunir os investimentos necessários para produzir obras que combinam qualidade na forma, no conteúdo e apelo comercial suficiente, porque a indústria de games não consegue? De qualquer maneira, ainda me espanta o fato de tantos educadores, comunicadores, biólogos e historiadores se envolverem na produção de documentários e programas educativos e tão poucos investirem em seus similares nos jogos eletrônicos. Será que ainda não levamos os games a sério? Ou será que temos pruridos intelectuais e estéticos para usar todo o potencial que o mundo virtual oferece? Aonde está o dinheiro? Quanto ainda teremos que esperar para produzir os Castelos Rá-tim-bum’s dos jogos de computador?
Não posso deixar de reconhecer o esforço do Ministro da Cultura Gilberto Gil em criar um programa de incentivo à produção do jogo eletrônico brasileiro. Entre outras coisas, foi dado um apoio financeiro de até R$ 30 mil para oito desenvolvedores criarem seus jogos. É pouco, quase nada, mas foi uma demonstração de visão do ministro. A indústria de games no resto do mundo envolve cifras superiores a US$ 10 bilhões. No Brasil, a produção ainda é incolor, inodora e insípida. Mais que dinheiro, nosso ministro cantor parece reconhecer a importância cultural e comportamental que os jogos têm. Ponto pra ele. Pena que o apoio que sua pasta é capaz de dar não passe de um alerta. Além de visão, precisamos de incentivos financeiros e legais de outra ordem, que sejam suficientes para alavancar, aqui no Brasil, um setor que no resto do mundo já nada de braçadas.
Não vai ser fácil. As pequenas empresas brasileiras que estão se formando para a produção de games mais parecem lan houses do que escritórios. Jogo é coisa da garotada e conquistar o respeito que merecem será uma tarefa árdua. As empresas ‘adultas’ ainda vão passar um bom tempo preferindo investir em obras ‘adultas’ para cinema ou TV. O governo ainda vai passar um bom tempo incentivando o software empresarial até se dar conta do ouro que essa garotada representa. Mais, temo, será tarde demais.
Em tempo:
A medida provisória 232, aquela que aumenta os impostos das empresas de serviço, como as de tecnologia (e de games), já está fazendo água. Ainda não sabemos o que sai e o que fica, mas as notícias dão conta de uma solução meia boca. Ao que parece, está prevalecendo a idéia de que o micro empresário brasileiro é um bill gates enrustido e que é ele, e não o bilionário setor financeiro, por exemplo, quem deve pagar a conta de um estado mal administrado.
