Crianças na rede
Autor kobashi :: 7 março 2005 - 3:00am tagTenho pensado muito em como as crianças usam o computador. Coleciono casos de amigos que viram seus filhos fazendo amigos através de programas de mensagens instantâneas. Garotos e garotas se conhecendo e criando laços independentemente do círculo social montado por seus pais: escolha da escola, do bairro onde moram ou do clube que freqüentam já não são determinantes. As crianças já não constroem suas amizades a partir do universo físico. Nos blogs, MSNs e ICQs elas criam ambientes virtuais a partir de afinidades das mais diversas naturezas. São nesses ‘lugares’ que os encontros acontecem. A internet abriu uma porta para o mundo pela qual a criançada passa livremente, sem cerimônia, ajuda ou controle.
Digito “meninas” no Google e entre links de desenhos animados acho blogs de trintonas-a-beira-de-um-ataque-de-nervos, de adolescentes em crises existenciais e sites de pornografia da pior qualidade. Os livros infantis politicamente corretos que escolhemos tão criteriosamente para nossos filhos ficaram para trás. Com um computador e acesso à internet eles vão ler o que quiserem e quando quiserem. Vão procurar uma coisa e achar outra. E é bom que seja assim. Navegar é pesquisar, relacionar isso com aquilo, aprender. Daqui pra frente, boa parte do conhecimento será adquirido dessa maneira. O problema é que entre uma pesquisa e outra vão esbarrar em muita coisa pesada. Pra valer. De refém americano sendo decapitado até práticas sexuais das mais bizarras. E põe bizarro nisso. No campo das idéias, mensagens e ideários racistas, segregacionistas, pró-violência também vão aparecer. O que tem no mundo, tem da internet.
Minha filha fará 9 anos esta semana e apesar de já acessar a internet, não tem o hábito de usar um mecanismo de busca. Ainda navega a partir de suas próprias referências, seus desenhos favoritos e temas escolares. Mas até quando?
Resolvi conversar com ela antes. Ao invés de flores e abelhinhas, o assunto era esse mundão que a internet coloca dentro da nossa casa, cheio de coisa bacana mas também com muita coisa ruim. Expliquei que, no começo, ela precisaria de ajuda para identificar o que era adequado ou não para alguém da idade dela. Combinamos que de tempos em tempos iremos conversar sobre o que ela tem feito na rede. Por enquanto, fica assim. Vamos ver no que vai dar. Ainda não descartei a instalação de um programa de ‘babá cibernética’, desses que filtram o conteúdo inadequado para uma determinada faixa etária. Acho que pode ser uma boa saída, principalmente no começo, mas vou tentar evitar construir uma barreira ‘digital’, mesmo porque, sei que com um pouco de dedicação qualquer criança aprende a burlar esses impedimentos e navegar no site que quiser. É melhor que a decisão de não acessar esses conteúdos parta dela, não de mim. Para evitar que uma criança seja enganada na rede, é muito melhor investir em sua capacidade de discernimento do que em programas de computador.
Lembro das reuniões que preparavam a abertura dos primeiros centros públicos de acesso à internet aqui em São Paulo, há 5 ou 6 anos. As discussões sobre controlar o conteúdo que poderia ser acessado nunca iam longe. A liberdade de acesso era dogmática. Ninguém ousava pensar em qualquer tipo de censura. Muito menos em sites proibidos ou controle ‘por software’ do que poderia ou não ser acessado. Na época, me divertia encurralando os desavisados com perguntas em seqüência. Primeiro perguntava se eles eram contra ou a favor de censurar o conteúdo da internet que poderia ser acessado nos centros que estávamos planejando. De pronto, todos eram contra. Pensavam, é claro, em censura política ou artística. Lembro de um diálogo mais ou menos assim:
- Pode acessar qualquer coisa?
- Pode, claro! Não há mais lugar para censura neste país!
- Site que ensina a fazer greve, pode?
- Claro que pode!
- E site revolucionário, que prega luta armada?
- Pode.
- E pornografia?
- Humm... se for maior de idade, pode.
- Mesmo se no computador ao lado estiver uma menina de 12 anos fazendo trabalho de escola?
- É, aí é fogo... então pode, mas só se tiver apenas adultos na sala. Melhor, só libera depois das 10 da noite.
- E antes das 10?
- Antes é melhor proibir. Isso, proíbe.
- Proibir o que? Pornografia ou site revolucionário?
