Com essa história da liminar que decretou o fim da cobrança da assinatura básica nas contas de telefonia fixa e foi cassada em seguida, acabei me lembrando do tempo da Telesp e das estatais de telecomunicações. Naquela época, quem quisesse ter um telefone em casa tinha que aguardar anos na fila ou pagar alguns milhares de dólares para conseguir uma linha no mercado negro. Ou então partir para o aluguel. No Brasil pré-privatização, particulares que por meios “republicanos ou não republicanos” conseguiam ter linhas telefônicas em seu nome, alugavam o “direito” de uso dessas linhas. Aluguel de linha telefônica. Quem tem menos de 25 anos nem imagina que isso existiu algum dia. Sabe o que é pior? A gente achava normal. Bem, normal não achava, mas aceitava a situação, contabilizava o prejuízo e tocava a vida em frente. A gente pode criticar o processo das privatizações à vontade, mas é justo reconhecer que o cenário das telecomunicações mudou muito, e pra melhor, desde que as estatais saíram do jogo. Então quer dizer que está tudo bem? Não, não está. Melhorou muito, mas não para todo mundo. Uma das promessas feitas na época das privatizações foi a universalização do serviço, ou seja, todo brasileiro ou brasileira teria direito a ter o seu próprio telefone. Mas não foi isso o que aconteceu. Por alguma razão inconfessa, a Anatel, que deveria zelar pelos interesses da população, parece mais preocupada com a rentabilidade das empresas. A manutenção da cobrança da assinatura básica e a resistência das operadoras em expandir seus serviços para o interior e áreas “não rentáveis”, leia-se periferia das cidades, têm impedido que a população de menor renda tenha acesso aos serviços de telefonia. Isso sem falar no dinheiro do FUST, R$ 3 bilhões que deveriam estar à serviço da tal universalização das telecomunicações e estão, há dois mandatos, trancados no cofre do Tesouro Nacional. Não fosse a popularização do celular pré-pago, atalho encontrado por aqueles que não têm como encarar o pagamento mínimo mensal exigido pelas operadoras, a situação seria ainda pior. É o brasileiro dando um jeito de sobreviver apesar dos governos que elege. Atenção pessoal da Anatel! Vou pedir um favor. Peguem papel e caneta e anotem aí: 15 kg de feijão, 30 kg de arroz, 21 litros de óleo, 19 pacotes de espaguete, 23 litros de detergente ou 69 fraldas descartáveis. São exemplos do que dá para comprar com os R$ 35,55 que as famílias de baixa renda podem economizar com o fim da cobrança mensal da assinatura básica. Agora colem este papel em um lugar bem visível e, diariamente, leiam a lista com atenção. Sei que vocês têm bom coração e vão acabar entendendo a bobagem que fizeram até agora defendendo a manutenção “dos contratos” e ameaçando a classe média com um “reajuste de tarifas.” Se não for abuso, gostaria de pedir mais uma coisa. Anotem também a seguinte frase: “Sem telefone fixo não há conexão à internet. Sem conexão à internet, adeus PC Conectado e inclusão digital.” Obrigado.