Onde estão as ONGs de inclusão digital?
Autor kobashi :: 25 abril 2005 - 3:00am tagLembro-me da primeira vez que participei da abertura de uma escola comunitária de informática. A ONG em que trabalhava entrava com os computadores e a capacitação dos professores. O resto era com a comunidade. Ajuda do governo nem pensar.
A festa de inauguração teve direito a refrigerante, amendoim e dois ou três discursos.
Assim que cheguei, vi que havia um grupo de moradores, de pé, espremidos em frente aos cinco computadores instalados. Cheguei mais perto e notei que as cadeiras dos micros permaneciam vazias. Eles estavam admirando as máquinas.
Naquela época, a gente dizia que pobre só via computador em fila de crediário e na hora de pagar conta. E só a parte de trás. Uma alusão à dificuldade de acesso à tecnologia de um lado e à informatização que corria solta no sistema financeiro do outro.
Alguns anos depois, participei da inauguração do primeiro Infocentro de São Paulo, lá no Jardim São Luis, representando a ONG que apoiava o projeto. Tudo muito parecido com a festa anterior, mas com dinheiro do Governo do Estado, computadores novos, banda larga e, é claro, um belo palanque.
Até o Governador Mário Covas estava presente, rodeado de assessores e jornalistas. Lembro-me de ter pensado que era o começo do fim da minha missão na inclusão digital.
Uma vez que o poder público já tinha acordado para o problema e estava disposto a colocar dinheiro – e buscar votos – nas soluções, ONG’s como a que eu dirigia perderiam espaço e importância. Agora, quando penso nisso, acho graça da minha inocência.
Mais algum tempo e a prefeita Marta Suplicy foi eleita e implantou seu programa de inclusão digital, os Telecentros da Cidade.
O programa manteve a participação das comunidades na gestão dos espaços e se tornou um modelo de massificação de acesso à tecnologia.
Apesar disso, e de ter 119 unidades que atenderam mais de 500 mil pessoas desde sua inauguração, os Telecentros têm sido tratados com descaso pela gestão do Prefeito José Serra, como foi noticiado na semana passada aqui no Estado.
Há atraso no pagamento de salários, computadores sem acesso à internet e impressoras quebradas.
Se eles levassem em conta o quanto demorou para que a população pudesse contar com esses serviços, teriam mais respeito por estas conquistas.Mas, se a imprensa fez seu trabalho denunciando os problemas da atual gestão, não podemos dizer o mesmo das ONG’s de inclusão digital.
Diferentemente do movimento ambientalista, que nasceu brigando por políticas públicas e postura responsável das empresas, os ativistas da inclusão digital começaram criando suas próprias escolas, tentando resolver o problema sozinhos. Na época, era o melhor que poderiam ter feito.
Hoje, com a entrada do governo no jogo, já não é bem assim. Garantir que os projetos implantados sejam mantidos e ampliados deve ser encarado como prioridade por todos.
O problema é que boa parte dessas organizações ainda vive no passado. Ao invés de manter acesa a discussão sobre políticas de fundo e ações abrangentes de acesso e formação tecnológica para a população de baixa renda, preferem defender a abertura de suas escolas comunitárias de baixo orçamento e relevância discutível. Estão mais preocupadas com seu futuro do que com o futuro da população.
Enquanto isso, o poder público faz e desfaz conforme seu humor. Projetos novos atrasam e os antigos são mal administrados. As ONG’s de inclusão digital deveriam parar de olhar para o umbigo e começar a repensar seu papel social.
