Informatização ampla, geral e irrestrita
Autor kobashi :: 30 maio 2005 - 3:00am tagNo meio da década de 1990, era razoavelmente fácil conseguir computadores usados para escolas de informática em comunidades de baixa renda. As empresas trocavam seus equipamentos com maior freqüência e, com alguns contatos e um pouco de esforço, não era difícil obter cinco computadores e uma impressora para abrir uma escolinha de informática comunitária.
O problema é que escolas gastam mais com professores, eletricidade, telefone, materiais de consumo e manutenção do que com equipamentos. Fazer frente aos gastos mensais era, e ainda é, um desafio maior do que conseguir a doação de computadores. Cobrar ou não cobrar mensalidade dos alunos era uma discussão permanente. Quem defendia a cobrança usava termos como “comprometimento”, “protagonismo” e o mofado “se-é-de-graça-não-dão-valor” para justificar a incapacidade de obter recursos de outra forma.
Um dia alguém teve a idéia de sugerir que as aulas fossem pagas com latinhas recicláveis de alumínio recolhidas pelas crianças. Chegaram até a criar projetos ditos de “informática e cidadania” e a defender a tese em congressos de inclusão digital.
Vista de longe, a idéia até parecia boa, mas de todas as bobagens que eu ouvia na época, essa era a que mais me irritava. Na prática, passaram o problema de volta para as comunidades. E crianças catando lixo para pagar um curso de informática não é meu ideal de inclusão digital.
O governo anunciou, enfim, o lançamento do PC Conectado. Felizmente, desistiram da tal blindagem jurídica para que apenas a população de baixa renda tivesse acesso ao programa. Agora, qualquer computador abaixo de R$2,5 mil terá os benefícios fiscais, não importando se o comprador é um microempresário, um pai de família de poucos recursos ou um garoto de classe média que gastará mais R$1 mil em acessórios para turbinar os seus jogos.
A má notícia é que o pacote de acesso à internet com tarifas camaradas e as formas de financiamento com juros reduzidos ainda não estão claras. Parece que continuam tentando evitar que a classe média se beneficie do programa.
Na semana passada, um pacote de bondades fiscais para o setor de Tecnologia da Informação (TI) também foi anunciado e inclui mais benefícios para o setor. As empresas exportadoras de serviços de informática terão isenções fiscais para investir no País.
No primeiro anúncio, somente as empresas que exportassem 80% de sua produção teriam direito ao benefício. Contadores e advogados festejaram. A criação de pessoas jurídicas de gaveta exclusivamente para concentrar os negócios externos e atingir o piso estipulado iria explodir, e as disputas judiciais com o governo não teriam fim.
Uma semana depois, já se falava em proporcionalidade dos benefícios, ou seja, nada de piso de 80%. Meu contador foi mais rápido. Para economizar tempo, recomendo à equipe econômica conversar com ele antes de soltar uma medida provisória.
No mais, beneficiar apenas quem exporta significa não beneficiar quem tem apostado no mercado interno, quem produz, vende e distribui produtos e serviços de tecnologia internamente e que, no final das contas, tem sido os agentes da informatização do país.
Tal qual os projetos pioneiros de inclusão digital, o governo subestima a importância da cadeia produtiva de tecnologia, dos serviços, da educação e do custo das telecomunicações para o desenvolvimento. Empresas e cidadãos precisam de toda a informatização que puderem conseguir. Meu consolo é que, pelo menos até agora, não me pediram para catar latinhas no lixo.
