A comédia dos erros digital
Autor kobashi :: 5 setembro 2005 - 3:00am tagTenho trabalhado com minha equipe na criação e manutenção de um site institucional, desses grandes, que envolve pessoas e instituições respeitabilíssimas. Outro dia me enviaram um e-mail pedindo que eu incluísse em uma das páginas um link para o endereço na internet de uma casa noturna. Eles organizavam um evento e queriam que seus clientes pudessem visitar o site do local, para pegar o endereço, mapa ou apenas conhecer o espaço.
Atendemos ao pedido, mas quando testamos o link, no lugar do site em questão abriu uma página com mulheres e homens nus, em situações nada convencionais e em closes, como direi, profundos. Depois do susto e do riso, links conferidos, a resposta veio. Havíamos recebido o endereço com uma letra errada.
Foi o que bastou para transformar uma casa noturna respeitável na mais explícita manifestação de pornografia na rede. Endereço corrigido, fiquei imaginando o que aconteceria se nosso controle de qualidade falhasse, e o tal link errado fosse colocado no ar.
Semana passada recebi um e-mail por engano. Um rapaz que trabalha para um dos meus clientes, no lugar de colocar o endereço de seu chefe na mensagem, colocou o meu. Pior. No corpo do e-mail ele me citava e não era exatamente elegante. Nada sério. Dessas coisas que a gente fala em particular, mas não pode, nem deve, falar em público. O garoto é boa pessoa e sei que não me quer mal, mas foi um vexame.
Contei essa história para uma colega, e ela veio com outra melhor. Uma conhecida resolveu escrever um e-mail para um amigo razoavelmente íntimo. O tal amigo era próximo do presidente da empresa em que ela trabalhava, e uma forcinha para conseguir uma promoção não viria em má hora.
Entre outras bobagens, lembrou jantares e deu a entender, de brincadeira, que a intimidade deles ia além de uma simples amizade. Tudo para justificar o favor que pedia. Estaria tudo certo se não tivesse enviado o e-mail, por distração, para uma lista de discussão que fez com que a mensagem fosse distribuída para todos os funcionários da empresa em que ela trabalhava, sem exceção. Foram semanas de constrangimento e gozação dos colegas.
Rindo dessas histórias com amigos, descobri que todo mundo tem um caso desses para contar. E não é só com sites ou mensagens de correio eletrônico. Muitos relatos incluem um telefone celular e aquela agendinha sem-vergonha.
Um sujeito tinha uma amiga e uma fornecedora com o mesmo nome. Usando a agenda do aparelho, ligou diversas vezes para a fornecedora achando que ligava para a amiga. Foi pintando um clima até que um dia a tal fornecedora deu uma prensa no rapaz e encarnou um “ou dá ou desce”, do tipo “se quer me cantar abre logo o jogo, essa história de liguei errado não cola mais”. O pior é que, segundo ele, tudo foi feito na maior inocência. Pra falar a verdade, nem eu acreditei nessa versão.
O fato é que ainda estamos aprendendo a lidar com toda essa conectividade.
Viver em rede, ligado e linkado, tem seus dissabores. A diferença entre o público e o privado está cada vez mais tênue, e não sabemos lidar com isso. É engraçado, damos risada, mas por baixo do pano há uma transformação para a qual ninguém se preparou. A comédia de erros escrita digitalmente é a ponta do iceberg da loucura de nossas relações na tal da sociedade da informação.
