A lição deixada pelo furacão Katrina

Autor kobashi :: 12 setembro 2005 - 3:00am tag
Você certamente já ouviu falar em supercomputadores. São equipamentos caríssimos, de alta tecnologia e com capacidade de processamento equivalente a dezenas de milhares de computadores, como o seu, juntos. O que talvez você não saiba é que os milhões de dólares investidos na construção dessas maravilhas tecnológicas nem sempre são empregados para disputar partidas de xadrez com mestres russos. Muitos supercomputadores são usados com objetivos mais nobres, como ajudar a moça do tempo, por exemplo. Não é fácil prever como a natureza vai se comportar. Sistemas climáticos são muito complexos. Informações sobre a temperatura nos oceanos, ventos, correntes marítimas, níveis de poluição, entre tantas outras variáveis, e por todo canto do planeta, devem ser levadas em conta para que as previsões sejam melhores do que o velho “tempo bom, sujeito a instabilidade ao cair da tarde”. Satélites, sondas, balões e sensores são espalhados pelo planeta e fornecem centenas de milhares de dados, que devem ser processados e aplicados a modelos matemáticos de grande complexidade. Jogo pesado. Tão pesado que só supercomputadores dão conta. Mas há vantagens em ajudar a moça do tempo a não falar bobagem, mesmo que custe bilhões. A agricultura e a economia dos países, e a integridade física de muita gente, dependem dessas previsões. Saber se, quando e quanto vai chover pode ser a diferença entre o lucro e a bancarrota de um agricultor. Saber onde, quando e com que intensidade um furacão vai passar pode salvar milhares de vidas. Ou quase. Foi assim com o furacão Katrina. Graças à alta tecnologia foi possível prever com 3 dias de antecedência onde e quando a destruição iria ocorrer. De posse dessa informação, o prefeito de New Orleans ordenou a evacuação imediata da cidade. Quem tinha para onde ir, e como ir, foi. Quem não tinha, ficou. E quem ficou sofreu ou morreu, como vimos pela TV. Muitos negros, muitos velhos e todos pobres. Mais uma vez, a tecnologia e a informação serviram melhor a quem tinha mais. A diferença entre os que morreram e os que se salvaram fala mais sobre as prioridades do mundo rico do que gostaríamos. E sobre como se comportam aqueles que têm quase nada diante da necessidade de deixar para trás o pouco que lhes resta. Um dia escrevi que “a cada salto tecnológico que a humanidade produz vem a esperança de que o mundo vai criar juízo. Arado, máquina a vapor, motor de explosão, penicilina, energia nuclear, computadores. Cada uma dessas descobertas foi seguida de promessas, sonhos e utopias de como o mundo seria mais rico, menos desigual, mais justo.” Bobagem. Somos quase tão geniais tecnologicamente quanto em produzir desigualdade. O recente relatório do Índice de Desenvolvimento Humano divulgado pela ONU nos lembra que neste mundo globalizado, conectado e internetado, há países onde a expectativa de vida é de 44 anos e 79% das crianças não têm escola. E que para cada dólar gasto com ajuda humanitária, dez dólares são gastos nos orçamentos militares. Parte deles em supercomputadores programados para ajudar os Exércitos a serem mais eficientes.