Um choque de tecnologia

Autor kobashi :: 19 setembro 2005 - 3:00am tag
É engraçado como as soluções para alguns problemas são óbvias, mas, por alguma razão misteriosa, nunca são colocadas em prática. Anos se passam, os problemas continuam, as mesmas soluções são repetidamente propostas, ninguém discorda, mas também ninguém faz nada. A vida segue em frente, e a gente começa a acreditar que os obstáculos são realmente intransponíveis, que as soluções nunca existiram de verdade, que eram apenas fruto da fértil imaginação coletiva do país. A indústria de tecnologia no Brasil sempre sofreu com o tal do ‘grey market’. Misto de contrabando e informalidade, o mercado cinza tem sido responsável por boa parte das vendas de computadores no País. Desde que começou a ser acompanhado por indicadores de mercado, vem crescendo ano a ano, e, em 2004, atingiu a vergonhosa marca de 74% do total de máquinas vendidas. É isso aí. Até o ano passado, 3/4 dos computadores comercializados por aqui tinham origem duvidosa. Incrível. A solução para acabar com essa “informalidade” nunca foi segredo para ninguém. Rigor na fiscalização e redução de impostos. Simples assim. Apertar o cerco a quem faz contrabando ou pratica sonegação e privilegiar quem trabalha dentro das regras. O consumidor não quer dor de cabeça e não gosta do mercado cinza. Prefere comprar em lojas idôneas e de marcas conhecidas, quer segurança e garantia de não perder o investimento feito. A opção pelo informal é patrocinada pelo preço inferior da mercadoria que não paga os impostos, mas também pela facilidade com que esses produtos podem ser achados no mercado. Hoje, a ilegalidade tem loja em shopping especializado, os produtos contrabandeados ficam expostos nas vitrines e podem ser pagos no cartão de crédito. Se a receita federal entendesse de varejo saberia que uma forma eficaz de coibir o contrabando seria acabar com a conveniência da compra, fechando os pontos-de-venda de fácil acesso, com estacionamento e metrô na porta. E colocaria um fiscal só para passear pelos sites de leilão virtual. Mas isso é assunto para outra coluna. Vamos voltar ao que interessa: rigor na fiscalização e redução de impostos. Recentemente o governo federal reduziu os impostos cobrados na venda de computadores pessoais e tomou medidas de combate ao contrabando que resultaram em apreensões importantes de discos rígidos, placas e outros componentes que são utilizados internamente nos computadores. O resultado, por mais incrível que pareça, foi o que a indústria de tecnologia e seus especialistas previam há anos. As vendas de computadores legais cresceram (44% em relação ao mesmo período de 2004) e, pela primeira vez na história, a participação do mercado cinza caiu (de 74% para 65% do total). O óbvio aconteceu. A redução da carga tributária gerou crescimento nas vendas formais. Aguardo ansiosamente por um pronunciamento do governo. Quero saber quanto do corte de impostos foi compensado pelo aumento no volume comercializado legalmente. Não duvido que a conta tenha empatado ou venha a trazer algum ganho para os cofres públicos. Bens e serviços de tecnologia deveriam ter um tratamento tributário especialíssimo. A quantidade de TI embarcada em uma empresa é, com raras exceções, diretamente proporcional a sua competitividade. Quando uma empresa se informatiza, traz a reboque, invariavelmente, melhora nos processos produtivos, aumento da lucratividade e redução de custos. Mais. Tecnologia da informação e educação possuem uma intimidade incontestável. Dificultar o acesso do cidadão às novas tecnologias é afastá-lo da informação e do conhecimento, reduz sua capacidade de trabalho e de participação. Em um país onde a tecnologia é barata, tudo é mais barato e melhor. Uma redução dramática na carga tributária não só de computadores pessoais mas também de servidores, dispositivos de armazenamento de alta capacidade, infra-estrutura, conectividade, softwares e serviços relacionados possibilitaria um salto qualitativo em todos os segmentos da sociedade, governo inclusive. Este país já precisou de um choque de capitalismo. Hoje, um choque de tecnologia não seria nada mal.